sábado, 16 de janeiro de 2010

Palavras

Palavras que açoitam a alma como um chicotear constante na pele marcada pela dor. Palavras que atingem o meu ser como uma flecha falhada, como um copo caído. Como um prato partido quebrado por promessas frívolas proferidas em vão. Como um corpo em chamas corrompido pelo ácido destruidor da alma. Palavras que se unem aniquilando o tudo e o nada que se atravessa. Seja pouco ou muito. Bom ou mau. Melhor ou pior. Palavras que penetram o coração e o fazem sangrar. E o coração chora. E chorará enquanto palavras forem proferidas em vão, sem sentido, sem significado, noção, conceito ou definição. Palavras. As palavras guardadas, jamais faladas. As minhas palavras. As tuas palavras. As palavras.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sente o meu olhar

Sente o meu olhar
O meu pensar.
Sente o meu olhar
O meu perder
Sente o meu olhar
O meu agir.
Sente o meu olhar
O meu amar.
Sente o meu olhar
O meu ser.
Sente o meu olhar
O meu sorrir.
Sente o meu olhar
O meu acabar,
O meu partir.
No meu morrer
Sente o meu olhar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Incongruências de uma vida condenada à confusão da linearidade de outra vida.

Será o homem tão vazio como um copo de água a transbordar?
Será o homem tão água como um copo de vazio a transbordar?
Será o homem tão energúmeno-demente-insciente que não consiga alcançar o que acabei de escrever?
Será o homem homem? Ou o homem homem o será?
Será? E porque será? O que será? E quando será? Onde será?
Mas será que será?
O quê?
No Inverno? Não, no Verão. Aliás, no Outono já que é uma estação menos habitual para ir de férias.
Seja onde for. O que interessa é estarmos juntos.
Mas quem? Eu? Tu? Não, nós os dois não combinamos. Já percebemos que Tu e Eu não dá. Chegamos ainda à conclusão que EU e TU também não. Não há um nós.
Nós? Não, já disse que não dava.
Mas quando fores lá cima traz-me um quilo delas.
E porque existe um nós se aqui só existe um. Ah, és tu.
Será o homem tão oco como uma frase sem palavras?
Será o homem tão sem palavras como uma frase oca?
O que interessa é ter trabalho. E saudinha. E alguma prosperidade. O resto é festa.
Pelos menos estes são os votos dos famosos, e dos ricos, e dos pobres, e dos da classe média, alta, média ou baixa, e dos pobres mais pobres, e dos pobres meio pobres, e dos pobres menos pobres, e dos pobres pedintes, e dos pobres miseráveis, e dos pobres dorminhocos das ruas, e dos outros pobres, e dos pobres de espírito, e dos ricos ricos, e dos ricos ainda mais ricos, e dos ricos mais classe média, e dos ricos aparentes, e dos restantes que não me apetece relatar.
Agora, como é que acabo isto? Ah, com um ponto final.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Calou

Olhou, rodou e parou. Sentiu. E tremeu.
Olhou o céu, e as aves, e o mar, e o sol.
Sentiu e Voltou a tremer.
Um calor no peito que lhe arrepiou o coração
Um impotente calafrio que lhe calou a voz.
E calou. Para sempre se calou.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Saber de onde vimos não é prioridade

Saber de onde vimos não é prioridade
Que interessa saber de onde vimos se não sabemos para onde vamos?
Vamos virar à esquerda, à direita. Alto, vamos em frente.
Mas e depois, qual o caminho?
Para onde sigo eu? Para onde segues tu? Para onde seguimos nós?
Eu sei que vim de trás. Não é mito. É certeza. Exacta e firme.
Mas que me interessa saber de onde vim, se não sei para onde vou?
Norte. Sul. Este e Aquele.
Não preciso de indicações. Não sabem onde quero ir.
Segue em frente. Esquece o caminho passado.
Mas, qual é o caminho que está de frente?
Eu posso me virar para qualquer direcção.
E, se isso acontecer, também não sigo em frente?
Sim, sigo.
Independentemente do rumo que tomar, seguirei sempre em frente.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Segui o caminho que a mim estava destinado

Segui o caminho que a mim estava destinado
Não fazia ideia do rumo que tomar
A indecisão tomou conta de mim
Mas segui o caminho que a mim estava destinado
Tentei seguir o trilho mais certo, mais adequado
Alcancei as estrelas
Desci às profundezas do mar, mergulhei na escuridão
Segui o caminho que a mim estava destinado
Não fui feliz, não fui triste. Não fui.
Quis ser.
Mas segui o caminho que a mim estava destinado
Tive sonhos. Uns realizei. Outros esqueci.
Alcancei. Por vezes desesperei. Temi, receei e cedi.
Segui o caminho que a mim estava destinado.
Tive medo de arriscar, de avançar. De ser feliz.
Medo de compreender, de amar. De lutar.
Medo de sentir. Tive medo de sentir.
Por isso, segui o caminho que a mim estava destinado.
Infeliz, mas o caminho que a mim estava destinado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fernando Pessoa entrevista Ricardo Reis

Embora, à partida, separados por interesses diferentes na vida, Eu e Ele estamos muito perto um do outro. As nossas idades têm apenas um ano de diferença, sendo que ele é mais velho, nasceu em 1887. Eu desde cedo me interessei pelas letras, no caso dele, bem, ele formou-se em medicina, mas apesar de tudo a poesia aproxima-nos, o gosto pelas letras é bem notório em ambos. Apresenta-se como um ser que não sente, mas sim um ser que pensa, por isso talvez possamos imaginá-lo frio e distante. Bem, quem melhor que o próprio para se dar a conhecer? Para isso ele está aqui comigo para responder a algumas perguntas que talvez nos ajudem a entendê-lo um pouco mais…

Ricardo, vamos começar de uma forma simples, consideras-te uma pessoa feliz ou triste?
“Não há tristezas, não há alegrias na nossa vida.”
(Mestre – Ricardo Reis)

Hum, e como achas que deve ser levada essa vida?
“Segue o teu destino. Rega as tuas plantas. Ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias”. “Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te. A resposta está para além dos Deuses”. (Segue o teu destino – Ricardo Reis)

O que pensas acerca do futuro, do teu futuro?
“Aguardo, com ânimo, o que não conheço – O meu futuro e o de tudo. No fim tudo será silêncio, salvo onde o mar banha nada.”
(Aguardo – Ricardo Reis)

Então, sem pensar no futuro, mas no teu dia-a-dia, como encaras o facto de existir a morte?
“Assim como é, gozemos o momento, solenes de alegria brevemente, e aguardando a morte como quem a conhecesse”. (Aguardo – Ricardo Reis)

Achas que existe comparação entre o sono e a morte?
“O sono é bom pois despertamos dele para saber o que é bom. Se a morte é sono despertamos dela; se não, não é sono.”
(O sono é bom – Ricardo Reis)

O que consideras existir acima de nós?
“Anjos ou Deuses, sempre nós tivemos, a visão perturbada de que acima de nós e compelindo-nos agem outras presenças.”
(Anjos ou deuses – Ricardo Reis)

Se pudesses, o que lhes pedirias?
“Aos deuses peço só me que concedam o nada lhes pedir”
(Aos Deuses - Ricardo Reis)

Recordas normalmente o passado? Sentes saudade?
“Se recordo quem fui, outrem me vejo, e o passado é o presente na lembrança. Quem fui é alguém que amo porém somente em sonho. E a saudade que me aflige a mente não é de mim nem do passado visto, senão de quem habito por trás dos olhos cegos. Nada senão o instante, me conhece. Minha mesma lembrança é nada, e sinto que quem sou e quem fui são sonhos diferentes.” (Se recordo – Ricardo Reis)

O que recordas do teu? Como foste nessa altura?
“Não sei de quem recordo meu passado que outrem fui, nem me conheço como sentindo com minha alma aquela alma que a sentir lembro.” “Somos quem somos, e o que fomos foi coisa vista por dentro” (Não sei – Ricardo Reis)

O destino, como achas que ele age?
“Nem da serva humilde se o destino esquece.”
(Nem da Serva – Ricardo Reis)

Para ti, qual a tua opinião sobre os quereres dos homens?
“Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada é livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.”
(Não só quem nos odeia nos inveja – Ricardo Reis)

Sentes-te oprimido pelos que te odeiam ou pelos que te invejam?
“Só quem nos odeia ou nos inveja nos limita e oprime; quem nos ama não menos nos limita.” (Não só quem nos odeia nos inveja – Ricardo Reis)

Tens alguma história que os antigos te haviam contado e que queiras partilhar?
“Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia tinha não sei qual guerra, quando a invasão ardia na cidade e as mulheres gritavam, dois jogadores de xadrez jogavam.” “Ardiam casas, saqueadas eram as arcas e as paredes, violadas, as mulheres eram postas contra os muros caídos, trespassadas de lanças, as crianças eram sangue nas ruas…mas onde estavam, perto da cidade, e longe do seu ruído, os jogadores de xadrez jogavam.” (Ouvi contar que outrora – Ricardo Reis)

Para ti o que é que sentimos?
“O que sentimos, não o que é sentido, é o que temos. Claro, o Inverno triste como à sorte o acolhamos. Haja Inverno na terra, não na mente. E, amor a amor, ou livro a livro, amemos nossa caveira breve.”
(O que sentimos – Ricardo Reis)

Qual é a tua opinião sobre o que é um sábio?
“Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo, e ao beber nem recorda que já bebeu na vida, para quem tudo é novo .” (
Sábio – Ricardo Reis)

Podes me explicar a razão de considerares que não serás alguém?
“Sim, sei bem que nunca serei alguém. Sei de sobra que nunca terei uma obra. Sei, enfim, que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, enquanto dura esta hora, este luar, estes ramos, esta paz em que estamos, deixem-me crer o que nunca poderei ser.” (Sim – Ricardo Reis)

Sei que tens uma relação especial com a Natureza, como comentas isso?
“Só o ter flores pela vista fora nas áleas largas dos jardins exactos basta para podermos achar a vida leve.” (Só o ter – Ricardo Reis)

Para finalizar em grande, Ricardo, julgas-te possuidor de mais que uma personalidade?
“Tenho mais almas que uma. Há mais eus do que eu mesmo. Existo todavia indiferente a todos. Faço-os calar: eu falo.” (Vivem em nós inúmeros – Ricardo Reis)