domingo, 22 de agosto de 2010

Deixei-a passar.

Senti o tempo a passar por mim. Devagar. Muito devagar. Sem pressa. Mas sentia-o a passar. E ele passava. E sorria para mim com aquele seu ar irónico. E eu sorria para ele, com medo. Tinha medo do tempo. E circundava-me. E eu entrelaçava os braços enquanto me perdia no olhar. No meu próprio olhar. E o tempo passava. E caminhava eu. Em frente. Sempre para a frente. Mesmo que o caminho fosse para trás. Ou mesmo para os lados, esquerdo ou direito. E o tempo passava. E lá estava eu, a errar e voltar a errar. Constantemente a viver uma vida condenada à vivência do erro. E o tempo continuava a passar. Toda uma existência no mesmo registo. Toda uma vida condenada a uma existência a que chamei vida. Toda uma existência camuflada pela palavra vida. E eu sem perceber que a vida é que passava por mim. Devagar. E eu deixei-a passar.

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