De pele escura e rosto sofrido lá estava ele. Com olhos castanhos inundados de saber. Mãos marcadas pela dor. Lábios condenados ao silêncio. O vestuário era próprio do seu tempo. Não do meu. Hoje é um simples velho como tantos outros perdidos pelas ruas da cidade ou do campo. Estão por toda a parte. A cada passo. Em cada esquina. Este é um simples velho marcado pelo tormento daquilo a que chamamos vida. Vida aqui é sofrimento. Tristeza. Angústia. Dor. Rancor. Medo. Arrependimento. Um dia foi alguém. Hoje é um ser faminto. Tem fome e sede. Fome de calor humano. Sede da vida. Fome do amor. Sede da paixão de viver. Hoje não é nada. Nunca o foi. Por sua culpa. Não teve sonhos. Ambições. Desejos. Pretensões. Pecou por isso. Viveu longe, bem longe. Num lugar chamado mentira. A mentira do amor. Do afecto. A mentira da família. A mentira chamada homem. A sua morada hoje chama-se solidão. Hoje está só. Não encarou a vida como uma flecha. Sempre acreditou que um dia poderia recuperar tudo. Ela não voltou. Está ali. Só. Teve nas suas mãos um instrumento que podia por ele ter sido tocado : o destino. Não aprendeu a tocar as suas próprias notas. Guiou-se pela música dos outros. Não foi autónomo. Incapaz. Está ali. Só. Olhou sempre para o futuro. Menosprezou o passado. Nada aprendeu. Deveria ter fitado a vida como um anteontem. Ter aprendido sempre com o passado do passado. Mas está ali. Só. Esteve ali ontem. Está lá hoje. Estará lá amanhã. Só. Este velho é intemporal. Não tem idade. Podes ser tu ou eu. Para que este velho não tenha o teu nome luta. Sofre. Ama. Chora. Ri. Pula. Brinca. Corre. Pragueja. Grita. Salta. Critica. Vive. Encara a vida e vive. Não te limites a existir, a sobreviver ou permanecer aqui e ali. Vive.
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FANTÁSTICO
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